Portugueses preparam protestos para receber Angela Merkel

ImagemLíder alemã chega a Lisboa nesta segunda-feira em meio a clima de descontentamento com seguidas medidas de austeridade e severa recessão econômica. Portugueses acusam governo de submissão à Alemanha.

Há séculos que o Rossio, no coração de Lisboa, é um conhecido ponto de encontro. Naquele lugar, foram realizadas execuções de supostos hereges durante a Inquisição. Hoje, sindicatos costumam promover ali seus protestos, e há um ano foi aqui que acamparam durante dias os integrantes do movimento Indignados.

Agora, a estátua do rei Pedro 4º (o mesmo imperador Pedro 1° do Brasil), situada no meio da praça, está decorada por um pano preto. Um grupo de ativistas convocou os portugueses a pendurarem panos negros em outros monumentos e também nas varandas e fachadas de prédios.

É assim que a chanceler federal alemã, Angela Merkel, deverá encontrar a capital portuguesa nesta segunda-feira (12/11), quando chegar para uma curta visita.

“Merkel é um símbolo de todas as decisões políticas erradas que têm afetado nosso país”, afirma João Camargo, ativista formado em economia pela London School of Economics. “É claro que as dívidas são um grande problema para Portugal e para muitos países europeus. Mas a política de Angela Merkel é um perigo não apenas para Portugal, Espanha ou Grécia e sim para toda a Europa”.

Esta será a primeira vez desde o início da crise da dívida no bloco europeu que a chanceler alemã vai a Portugal. Ela se encontrará com o presidente português, Aníbal Cavaco Silva, e com o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho. Merkel também participará de um encontro entre empresários portugueses e alemães no bairro de Belém – cerca de 100 representantes de empresas alemãs viajam com a comitiva da chanceler.

A mensagem que Berlim quer transmitir é clara: a Alemanha quer ajudar a levantar a economia portuguesa, que desde o fim do ano passado encontra-se em profunda recessão, por meio de projetos específicos de cooperação.

Duras críticas às medidas de austeridade

Em Belém, porém, Merkel não deve encontrar apenas empresários. Diversos movimentos populares e a Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP) organizam um grande protesto para “recepcionar” a chanceler alemã. A irritação dos portugueses, no entanto, se dirige principalmente ao próprio governo conservador do país.

A proposta de orçamento para o ano que vem apresentada por Passos Coelho propõe drásticas medidas de austeridade, criticada duramente pela grande maioria de analistas e economistas portugueses.

O economista Pedro Lains, do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa, não tem dúvidas de que o governo português está transformando o país em uma segunda Grécia.

“A verdadeira pergunta não é se devemos economizar ou não, mas sim o quanto devemos economizar. Este rígido plano de austeridade traz duras consequências para a Europa. A economia dos Estados enfraquecidos está ficando ainda mais frágil e vulnerável e terá grandes dificuldades de permanecer na zona do euro”, afirma Lains. “Além disso, as consequências políticas são catastróficas, pois o sentimento antieuropeu no país é crescente”, avalia.

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Portugal como exemplo?

Nos últimos meses, Portugal vem sendo tratado como um exemplo de que as duras medidas de austeridade que vêm sendo adotadas nos países no sul da Europa poderão ter êxito. Mas esta imagem já está aos pedaços. Com a continuidade da crise econômica, a arrecadação fiscal caiu assustadoramente, as crescentes taxas de desemprego geram problemas sociais, e reformas em áreas importantes, como na administração pública, estão congeladas.

O governo em Lisboa ganhou da troica – formada pela União Europeia, Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu – mais um ano para tentar equilibrar as contas e terá até 2014 para reduzir o déficit até 3%. É cada vez mais alto, porém, o coro defendendo uma renegociação das reformas e dos planos de austeridade com a troica.

O Conselho Econômico e Social, dirigido por um ex-ministro com fortes ligações com o governo atual, pediu uma redução dos juros que Portugal paga aos credores, devido ao pacote de resgate de 78 bilhões de euros concedido ao país.

Muitos portugueses criticam a relação próxima que o governo português mantém com Angela Merkel. A suposta submissão de passos Coelho perante a chanceler alemã é tema frequente de pichações nas ruas e de protestos.

Em uma dessas manifestações, a médica Sofia Lima, 32 anos, carregava uma placa que trazia a seguinte mensagem em alemão: “Parem de roubar dos trabalhadores e do Estado”. “Se o novo governo não nos ouve, porque falamos português, então talvez seja melhor usar o idioma que no momento tem ditado as ordens da atual política”, explica Sofia, com sorriso sarcástico nos lábios.

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